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O Esoterismo Cristão no S��culo XIX: Uma Interpretação de Cristo.

 

 

    O CRISTO REINTERPRETADO: ESPÍRITAS, TEÓSOFOS E OCULTISTAS DO SÉCULO XIX. 

         Profa. Dra. Eliane Moura Silva.

         UNICAMP/IFCH/Dep. de Hist��ria. 

         Durante o s��culo XIX, no Ocidente, o conhecimento cient��fico tornou-se o crivo obrigat��rio da sociedade. A este conhecimento aliou-se a razão, o progresso e o materialismo. Juntos refletiam o lado luminoso da sociedade. As certezas racionais afirmaram a instrução, o darwinismo social, a modernização e foram as bandeiras sob as quais abrigaram-se diferentes segmentos sociais. Este avanço do evangelho racional e cient��fico teve, como contrapartida, um recuo das religiões tradicionais, pelo menos nos centros mais urbanizados e intelectualizados.

         Para cientistas e intelectuais da segunda metade do s��culo XIX, o materialismo apresentava para a Humanidade um futuro sem sobressaltos, num progresso cont��nuo e sem dramas. A razão humana tornava-se todo-poderosa, progressivamente ��perfeita�� e o conhecimento material ampliado conduzia a uma confiança absoluta na educação cient��fica, numa esp��cie de otimismo messiânico, com o imp��rio da Liberdade, da Felicidade e da Riqueza.(1). O otimismo combinava com o positivismo e a crença numa evolução ilimitada. Aliava-se ao desenvolvimento do conhecimento cient��fico, a redescoberta das culturas antigas, mitol��gicas e extra-ocidentais. A expansão colonial trouxe contatos com povos, ��pocas e culturas diferentes.

         Da segunda metade do s��culo XIX em diante, duas vozes dissonantes alimentaram uma pol��mica rec��proca: a causa da ci��ncia e da natureza em nome de uma religiosidade exclusivamente secular. Contra esta extrema secularização levantaram-se os direitos irrevog��veis da consci��ncia, da defici��ncia insan��vel da Razão e do poder sobre-humano do Sagrado e do Mist��rio.

         A crise religiosa revelada desta ��poca manifestou-se, freq��entemente, contra a oficialidade de todas as formas de tradição, de todas as figuras hist��ricas e espiritualmente gastas, vazias, sem criatividade ou inventividade. Esta crise apontou a necessidade de uma religiosidade espiritualmente mais adequada, de novas utopias de salvação.

         As novas criações religiosas desde o s��culo XVIII e, sobretudo no XIX, são marcadas por uma concepção espiritualista de inspiração e interpretação das Escrituras, da recuperação de uma vida interior diretamente em contato com a divindade. Temos, inclusive, um campo prop��cio para o estabelecimento de v��nculos entre a m��stica espiritualista, o esoterismo e o racionalismo, num desejo de articular um tipo de exegese religiosa em bases contemporâneas com as apar��ncias do m��todo cient��fico, apresentando novas mensagens cristãs. (2).

         O pensamento naturalista seguiu o caminho das novas conquistas da Ci��ncia e da Epistemologia, com o alargamento da doutrina do conhecimento sobre qualquer aspecto ou problema do Universo. Mas a forte recuperação da consci��ncia religiosa, cristã ou não, instituiu uma pol��mica sem paralelos.

         Um novo e abundante discurso espiritual procurou integrar Ci��ncia e F��, Ocidente e Oriente, o Novo e o Antigo. De um lado, um neo-evangelismo que pregava um Cristianismo Universal nas bases da tolerância, fraternidade e paz. De outro lado, o retomar de um ideal humanista buscando reforço nas antigas doutrinas de uma Verdade Universal, na sabedoria de religiões extra-cristãs. Profetas modernos, esoteristas, espiritualistas cient��ficos espalharam o g��rmen de uma nova e ampla espiritualidade.(3).

         O esoterismo tornou-se uma definição obrigat��ria para alguns movimentos religiosos do per��odo. O termo ��esoterismo�� define uma doutrina segundo a qual uma ci��ncia, um sistema de crenças filos��fico-religiosas, reflexões epistemol��gicas e ontol��gicas da realidade ��ltima não devem ser vulgarizadas e nem divulgadas senão entre adeptos, conhecidos e eleitos. No s��culo XIX a palavra ��esoterismo�� converteu-se frequentemente, em sinônimo de oculto, de ocultismo, sendo aplicado a campos de estudo e conhecimento como a magia, a mântica e a cabala. Estas definições abrangentes abarcam uma realidade hist��rica complexa e difusa. Crenças, teorias, t��cnicas m��sticas e inici��ticas que poder��amos classificar como esot��ricas j�� eram populares na Antiguidade Tardia, não desaparecendo na Idade M��dia, tornando-se importantes na Renascença, atravessando os s��culos XVII e XVIII para ganharem fôrça e expressão no s��culo XIX. Uma definição ampla, sugere a exist��ncia de um campo espec��fico e abrangente, com fronteiras comuns, debates e metodologias particulares. Por��m, o termo aplica-se, de v��rias formas, a diferentes concepções religiosas. O ��esoterista�� �� o pensador -cristão ou não-  que desenvolve suas crenças, estudos e religiosidade sobre tr��s pontos: analogia, teosofia e igreja interior. A analogia �� a crença (ou como ser�� percebido �� partir do s��culo do XVIII, uma lei) segundo a qual existem, entre seres e coisas, relações necess��rias, intencionais que não são necessariamente, temporais ou espaciais: o an��logo atua sôbre o an��logo e desta forma explica-se a magia e o conhecimento que conduz ao ��esp��rito das coisas��. Desta forma, no pensamento anal��gico, conhecer o Mundo �� conhecer Deus, porque a Natureza representa uma revelação gradual. A Ci��ncia adquire uma significação religiosa. A teosofia, que não tem o mesmo significado da Sociedade Teos��fica fundada no s��culo XIX, d�� sentido a analogia e compreende tanto uma interpretação profunda de textos sagrados como a experi��ncia m��stica pura. O pensamento teos��fico insiste em determinados pontos dos dogmas sôbre os quais a religião constituida e institucionalizada tende a ignorar para, atrav��s desta exploração e indagação met��dica chegar a iluminação interior. A m��stica especulativa confere a teosofia o poder de proporcionar o conhecimento e inspiração. A igreja interior, espiritual e individual, independente de religiões organizadas, coloca-se como a experi��ncia m��stica por excel��ncia. A Alma Humana tem origem divina e, portanto, pode acercar-se de Deus, onde reside esta mesma Alma. A União divina �� imanente a natureza humana e graças a iniciações, conhecimentos sagrados e secretos, pode-se chegar a este reencontro divino. A iniciação implica em regeneração que depende de gnose. Esta igreja interior �� a ��nica verdadeira e eterna, ao contr��rio das Igrejas materiais, que serão sempre destru��das, sobrevivendo, exclusivamente, a igreja invis��vel e interior. Este sentido permanece entre as correntes esot��ricas do s��culo XIX surgindo formas de esoterismo cristão s sofrendo as influ��ncias pagãs e m��sticas do esoteristas dos s��culos anteriores e que incluiam magia, alquimia, meditação, ��xtases m��sticos, necromancia, cabala, numerologia, ordens secretas, etc. No começo deste s��culo o orientalismo invadiu a Europa que descobriu os livros do Egito, da India e do remoto Oriente fornecendo um novo campo de construções e representações para os movimentos espirituais desta ��poca. Foi o Oreinte romantizado que alimentou o orientalismo espiritualizado do per��odo.(4).

         O desconhecido, o incompreens��vel, o sobrenatural, tornaram-se populares. A voga do ocultismo, magnetismo, magia, espiritismo, esoterismo, espiritualismo, hipnotismo, homeopatia, de v��rias versões do misticismo e da religiosidade oriental, ganhou espaço na sociedade, inclusive nos meios cient��fico, intelectual e art��stico.

         No fin de si��cle o interesse e as influ��ncias desempenhadas pelo ocultismo �� sentido pelo c��tico Anatole France. Em 1890, ele dir�� na Revue Illustr��e que ��(...) um certo conhecimento das Ci��ncias Ocultas tornou-se necess��rio para a compreensão de certas obras liter��rias do per��odo. A magia ocupou um lugar importante na imaginação de nossos poetas e romancistas. O fasc��nio pelo invis��vel toma conta deles, a id��ia do desconhecido os perseguiu, e o tempo voltou a Apuleio e Flegon de Trales��. (5).

         Este interesse e  curiosidade pelo oculto aliaram-se com uma forte tend��ncia  positivista e otimista, evolucionista e baseada na ��tica do trabalho da sociedade burguesa do per��odo, formando, assim, a base de alguns importantes movimentos m��sticos e espiritualistas da segunda metade do s��culo XIX em diante, sobretudo o Espiritismo de 1848 em diante, a Sociedade Teos��fica fundada em novembro de 1875 e diferentes pensadores ocultistas desde a segunda metade deste per��odo.

         No caso do Espiritismo, tratava-se de um grande movimento espiritual, filos��fico e cient��fico centrado no contato regular e sistem��tico com os mortos, nas manifestações conscientes dos esp��ritos desencarnados e nos ensinamentos por eles transmitidos. Embora a pr��tica de invocar os mortos, de tentar contactar os mortos seja um aspecto antigo de diferentes culturas e religiões, no Espiritismo moderno, estas questões adquirem um novo influxo, de acôrdo com os princ��pios da ci��ncia positiva, da filosofia secularizada. Se por um lado a imortalidade da alma e a sua sobreviv��ncia a morte f��sica, possuia o perfil de um problema filos��fico ou teol��gico pass��vel de ser ��equacionado�� atrav��s de teorias e da interpretação de textos, por outro, era profunda e intensamente vivenciada pelas camadas não ��eruditas�� da população mesclando-se ao seu cotidiano, de agora em diante, com  experi��ncias que demonstrariam, cientificamente, a origem natural dos fenômenos ditos sobrenaturais. (6).

         Novas imagens do C��u, do Inferno, das penas espirituais compunham uma nova expressão religiosa, acenavam com promessas de salvação e esperança, livres das condenações eternas pesadas nas consci��ncias.(7).

         As representações da sobreviv��ncia espiritual dos mortos em formas et��reas, fluidas e di��fanas formavam imagens romantizadas. Expressavam uma particularidade da ��poca na qual materialidade e fluidez podiam ser representadas e explicadas em associação com a luz, a energia el��trica e, mais tarde, as ondas de r��dio rec��m- descobertas. Esta era a magia dos espet��culos da fe��rica Loiue Fuller, bailarina perform��tica que encantava os teatros da Belle Epoque com seus espet��culos de dança, jogos de luz e sombra, que lhe conferiam uma aspecto m��gico e sobrenatural.(8).

         Na França organizou-se um movimento esp��rita muito importante e que exerceu importante influ��ncia inclusive no Brasil, ligado a figura de Allan Kardec.(9). O movimento esp��rita kardecista franc��s colocava-se como cristão. Suas bases de interpretação estavam nos conhecimentos fornecidos pelos esp��ritos. Era uma nova revelação das verdades cristãs, de uma nova interpretação do cristianismo, a terceira revelação da lei de Deus, onde os ensinamentos de Cristo seriam completados pela aliança com a Ci��ncia que deixaria de ser exclusivamente materialista. Para esta aliança, o Espiritismo trazia o conhecimento das leis imut��veis que regiam o Universo espiritual e suas relações com o mundo material, os astros e a exist��ncia dos seres. Procurou desvendar os mist��rios ocultos da grandes verdades do Cristianismo.

         A figura de Cristo na doutrina esp��rita foi a do mestre, iniciador da mais pura moral evang��lico-cristã, renovadora do mundo e de integração entre todos os homens, sem raça, cor, classe ou sexo. Era o consolador, pacificador, m��stico e espiritual cujos ensinamentos ocultavam-se nas par��bolas:

         �� Assim o Espiritismo realiza o que Jesus disse do Consolador prometido: conhecimento das coisas, fazendo que o homem saiba donde vem, para onde vai e porque est�� na Terra; atrai para os verdadeiros princ��pios da lei de Deus e consola pela f�� e esperança.�� (10).

         O Cristo esp��rita simbolizou a paci��ncia, a bondade, a afabilidade, a doçura, a obedi��ncia aos des��gnios do divino, o perdão, a caridade, o amor ao pr��ximo, a virtude ativa na pr��tica desapegada do bem. Foi o divino salvador, o justo por excel��ncia, o mestre da evolução espiritual, o emiss��rio de Deus para instruir os homens e revelar as coisas ocultas e os mist��rios divinos. Cristo foi antecedido por S��crates, Platão, Mois��s, João Batista, os precursores da id��ia cristã e do Espiritismo.

         A natureza da divindade de Cristo foi reavaliada em confronto com o dogma da identidade Cristo-Deus. Milagres não qualificavam a divindade de Cristo: eram fenômenos naturais, de qualidade semelhante aos produzidos por m��diuns, videntes, sonâmbulos e curadores atrav��s dos s��culos e demonstrados, no s��culo XIX, pelo Magnetismo e Espiritismo. Para os esp��ritas Cristo não era Deus e uma correta interpretação dos Evangelhos mostrava isto. Ele era um servidor de Deus mas Filho do Homem, pertencendo a Humanidade. Suas virtudes o encaminham para Deus: amor a divindade, ao pr��ximo e a caridade como caminhos da Salvação.

         O Espiritismo valorizou a figura do Cristo hist��rico, o representante das id��ias fundamentais da Igreja primitiva e a parte moral de seus ensinamentos. Foi o Cristo exemplo, o Cristo interior, imagem de perfeição Humana:

         A interpretação da figura do Cristo pelos esp��ritas apoiava-se na tradição humanista, no contexto cient��fico e hist��rico de sua ��poca, evolucionista e positivista, apontando a graduação do conhecimento como elemento definitivo para a compreensão da progressividade da revelação divina: Mois��s e os profetas, em seguida Jesus, em terceiro a verdade esp��rita, todas estas fases prof��ticas de acôrdo com o progressivo evoluir da Razão, do cultivo das faculdades espirituais, da capacidade de trabalho constante e dos avanços da Ci��ncia. Jesus correspondeu ao mundo hist��rico, a maturidade espiritual de sua ��poca, as condições de seu tempo.

         Em 1885 surgiu em Avignon, na França, um livro psicografado por uma senhora de instrução rudimentar que passou a ser conhecido pelo t��tulo de Vida de Jesus: ditada por ele mesmo. Era uma obra medi��nica que contava uma hist��ria de vida de Cristo ditada pelo pr��prio para esclarecer aos cristãos sua verdadeira vida, princ��pios morais e experi��ncias religiosas. Um Jesus-homem, com suas d��vidas e dramas romanceados, adquirindo perfeição espiritual depois de sofrimentos e estudos que incluiam a Cabala. Sua inspiração divina vem dos esp��ritos superiores que o ensinavam a m��xima virtude e sabedoria, livre das instituições sacerdotais de sua ��poca. Ao contr��rio, o Cristo-esp��rita foi instruido por m��diuns que recebiam inspiração direta de Deus para transmitir aos homens, incluindo explicações acerca da reencarnação:

         ��Deus manda a todos os mundos instrutores, mas a cada mundo lhe estão destinados como instrutores, esp��ritos do mesmo mundo. Os messias são instrutores avançados, cujos ensinamentos parecem utopias. Minha missão não podia impor uma regra de conduta em um s��culo de ignorância, tendo que limitar-se a fazer nascer id��ias de revolução nos esp��ritos e prepar��-los para a renovação do estado social futuro.(...).)��. (11)

         A representação deste Jesus esp��rita fundamentou uma f�� sob uma ��tica cient��fica, social, numa compreensão da natureza e da vida. Revelou uma visão hist��rica e otimista da evolução humana, do modo de ser no tempo e na sociedade, a condição espiritual de uma aliança entre Cristianismo e Ci��ncia, uma confiança nos milagres cient��ficos e tecnol��gicos caracter��sticos de sua ��poca.

         Este mesmo esp��rito otimista e positivista marcou o outro grande movimento religioso do renascimento ocultista da segunda metade do s��culo XIX: A Sociedade Teos��fica fundada em Nova Iorque, em novembro de 1875, por Helena Petrovna Blavatsky.(12)

         As doutrinas filos��fico-religiosas da Teosofia apoiavam-se num conjunto te��rico ecl��tico e resultaram um movimento inici��tico e parareligioso que influenciou as id��ias de pensadores, cientistas, artistas e acad��micos. Neste movimento, bastava ler a obra completa de Blavatsky, tornar-se membro de um grupo teos��fico para ser, gradualmente, iniciado nos mist��rios do Universo e da alma imortal transmigrante em c��rculos encarnat��rios.

         Para a Teosofia a figura de Cristo foi a de uma encarnação das virtudes divinas, de um iluminado, um adepto dos antigos Mist��rios e iniciado na sabedoria oculta, assim como Pit��goras, Platão, S��crates, Jâmblico. Jesus-homem, amigo de Deus, um personagem hist��rico que expôs suas doutrinas segundo os princ��pios de Hermes Trismegistos, Platão, Pit��goras, Amonio Saccas, Filaleteu e outros iniciados. O objetivo de sua ação e doutrina era o de restaurar a sabedoria dos antigos, reduzir as superstições e exterminar os erros das diferentes religiões.

         O Cristo dos te��sofos foi interpretado pelo seu car��ter esot��rico, secreto, caracter��stico do Cristianismo primitivo que teria um lado oculto. Cristo-ocultista, m��stico, iniciado e cujas pregações o aproximam de Buda, mas tamb��m lutando contra os males espirituais e sociais, por��m um s��mbolo e exemplo da transformação interior:

         ��A vinda de Cristo significa a presença de Christos num mundo regenerado e, de forma alguma, a verdadeira vinda em corpo de Jesus Cristo; este Cristo não deve ser buscado nem no deserto nem no interior da casa nem no santu��rio de qualquer templo ou igreja constru��dos por homens, porque Cristo - o verdadeiro Salvador esot��rico não �� nenhum homem, mas o Princ��pio Divino em cada ser humano��.(13).

         Ao lado destes movimentos, encontramos tamb��m diversos pensadores ocultistas dos mais variados matizes. O Ocultismo neste per��odo foi, b��sicamente,  um campo de conhecimento, pr��ticas, t��cnicas e procedimentos intencionais alcançados atrav��s dos poderes secretos e desconhecidos da Natureza e do Cosmo para se chegar a resultados emp��ricos como, por exemplo, a sucesssão dos acontecimentos ou a alteração do curso normal.

          Na verdade, costuma-se ligar o surto neo-ocultista do s��culo XIX a figura do seminarista franc��s Alphonse Louis Constant, conhecido pelo pseudônimo de Eliphas Levi. Fortemente influenciado pelo renascido movimento rosacruz europeu do s��culo XIX, pela maçonaria m��stica, pelos estudos da Cabala, por Jacob Böhme, Emanuel Swedenborg e v��rios m��sticos e vision��rios do s��culo XVIII, Eliphas Levi foi o precursor do surto ocultista do s��culo XIX. (14).

          Sob a perspectiva de Levi, Jesus simbolizava Deus unido a Humanidade, a divindade humana. Era o Rei dos Magos, um representante da Alta Magia antiga. Sua hist��ria e exist��ncia revelavam ser ele um grande m��stico e iniciado na sabedoria secreta ancestral. Para Levi, o Cristianismo do Cristo foi esot��rico e m��gico e assim poderiam ser explicados os milagres e sentido oculto de seus ensinamentos, das evocações e da pr��pria ressurreição. Na perspectiva ocultista o que importava era a Doutrina Secreta de Cristo:

         �� A doutrina secreta de Jesus era esta: Deus tinha sido considerado um Senhor e o pr��ncipe deste mundo era o mal; eu que sou o Filho de Deus, vos digo: não procuremos Deus no espaço, ele est�� nas nossas consci��ncias e nos nossos corações. Meu pai e eu somos um e quero que v��s e eu sejamos um. Amamo-nos uns aos outros como irmãos. Não tenhamos mais que um coração e uma alma. A lei religiosa �� feita para o homem e não o homem para a lei. (...).

         Eu sou v��s e v��s sois eu, no esp��rito da caridade que �� o nosso e que �� Deus. Cr��de isto e fareis milagres.�� (15).

          Mas tamb��m foi uma v��tima da liberdade, um messias que se revoltou contra a desigualdade, contra o ego��smo e a injustiça pregando um fim para as velhas sociedades injustas e hip��critas. O verdadeiro Cristo consolava os sofredores, amparava os orfãos, não separava pobres e ricos, não julgava nem condenava seus irmãos, ao contr��rio daquilo que a Igreja havia feito durante s��culos. O segredo da Vida Eterna de Cristo era ter vivido para os outros e pelos outros: esta era a fonte da eterna juventude simbolizando a força do Homem-Deus que regenerava a Humanidade atrav��s do amor absoluto.

         Dentro desta tradição ocultista e do esoterismo cristão do s��culo podemos destacar tamb��m Stanislas de Guaita. (16). Nele a figura de Cristo alcançou um sentido m��stico e divino absoluto. Para Guaita, de acôrdo com a tradição cabalista, a lenta e progressiva descida do Esp��rito na Mat��ria passou pela divinização de Adão-Kadmon, cuja alma coletiva foi Jesus Cristo. Cristo era, portanto, Esp��rito Divino, a Absoluta Bondade e Verdade, um representante da Alta Magia herdada dos caldeus atrav��s de Abraão, reformada por Mois��s e divinizada por Cristo. Assim o Cristianismo oculto e secreto, a verdadeira Igreja do Cristo, procurava desenvolver a positividade do homem tornando-o um Ser de Vontade:

         ��Creio na imortalidade da Igreja do Cristo, pois Cristo realizou hierarquicamente o Grande Arcano sobre a Terra e divinizou-se pelo seu esp��rito at�� no ventre de sua mãe. Nasceu de Deus porque era fatalmente destinado a realizar o todo divino em si.�� (17).

         Em Guaita prevaleceu o significado oculto do Cristo Glorioso, o s��mbolo da Divina Magia. Cristo era o Fogo regenerador, ve��culo de vida e reintegração, a divindade manifestada em Verbo, a união do Esp��rito e da Alma universais, aquele que veio resgatar o homem do fundo da Criação  para passa para um novo mundo de Deus. Todas estas interpretações eram marcadas por uma forte carga m��stica, explorando e sentido esot��rico das alegorias:

         �� Pois, o Adão deca��do ou Cristo doloroso, s��ntese m��stica da Igreja Militante, geme, aprisionado no Universo-Substância que elabora, ap��s ter passado o ato; o Adão-Celeste ou Cristo Glorioso, s��ntese da Igreja triunfante, preenche sempre com sua gl��ria o Universo-Ess��ncia, que �� sua Obra.�� (18).

         O Cristo em missão divina para resgatar as verdades eternas, dando-lhes uma roupagem nova, mais coerente com a alma m��stica do mundo rejuvenescido: foi assim que Guaita viu o Cristo. 

         Os movimentos esp��rita, teos��fico e ocultista não foram os mesmos, por��m tiveram v��rios elementos comuns: Todos revelavam uma profunda insatisfação com o Cristianismo institucional nas suas mais variadas vertentes. A s��ncope hist��rica do Cristianismo no per��odo aqui apresentado produziu um grande vazio entre os intelectuais  e classes m��dias da ��poca. Este vazio foi sendo preenchido por estes movimentos religiosos, anti-clericais e de livre-pensadores, assim como pelo desenvolvimento de teorias pol��ticas e sociais libert��rias. Assim, alguns tentaram chegar �� fonte da mat��ria prima da Criação, da verdadeira natureza de Deus, dos sentidos ocultos da natureza e do Cosmos, enquanto outros buscavam Mestres invis��veis, comunicação com esp��ritos.

         Em suma, a busca das Origens, marca de diversas vertentes do conhecimento intelectual da segunda metade do s��culo XIX, inclusive na Hist��ria, na lingu��stica, na arte e na emergente psican��lise. A procura das origens puras da religião articulou-se com a procura das origens das instituições e criações culturais humanas, num prolongamento da Origem das Esp��cies, da origem da vida, da terra e do Universo, numa nostalgia pelo primordial e original.(19).

         O interesse pelo oculto, pelo sobrenatural, pela transformação espiritual dos indiv��duos e da sociedade, as tentativas de organizar movimentos parareligiosos que respondessem a perguntas existenciais profundas e ocupassem o vazio deixado pela crise das religiões tradicionais foi uma das marcas da hist��ria intelectual deste per��odo.

         Todos estes movimentos marcaram o pensamento de sua ��poca. Solaparam certezas pol��ticas, cient��ficas e religiosas, met��foras ideol��gicas e o imperialismo. Tentaram oferecer alternativas ao liberalismo e �� crise social. A id��ia geral de que o materialismo, a razão e a ci��ncia reinaram soberanos neste per��odo da Hist��ria deve ser repensada �� luz destes movimentos.

          

    Notas:

         1) Eliade, M. Origens, Lisboa, Ed. 70, 1990, p. 60.

      2)  Ver: Faivre, A. Acces to the western esoterism, NY, Suny Series, State University of NY Press, 1996, pp. 49-94.

         Marty, M. The Occult Establishment, Social Research, 37: 212-30, 1970

         Tiryakin, E.A. Toward the sociology of esoteric culture, American Journal of  Sociology, 78: 491-512.

         Reed, J. The Occult: Studies and Evaluation, Bowling Green,Ohio, 1972.

      O��Keefe, D.L. Stolen Lightning - The Social Theory of Magic, NY, Vintage Books, 1983.

      Galbreath, T. The History of Modern Occultism: a Bibliographical Survey, Journal of Popular Culture, 5: 126-54, Winter 1971.

         Guerin-Ricard, L.  Hist��ria del Ocultismo, Plaza Janes, Barcelona, 1967.

      Faivre,Antoine/Needleman,Jacob (org.)Modern Esoteric Spirituality.  NY, Crossroad Publ., 1991. Vol 21 da World of Spirituality: An Encyclopedic History of the Relious Quest.

      James,Marie-France. Ésot��risme, Occultisme, Franc-maçonnerie et Christianisme aux XIX et XX si��cles. Explorations bio-bibliografiques, Paris, Nouvelles Ed. 1981

      Mozzari, Eloise. Magie et Superstitions de la la fin de L��Ancien R��gime a la Restauration, Paris, Robert Lafond, s.d. 

           3)  Eliade, M.  Mefist��feles e o Andr��gino, SP, Martins Fontes, 1991, pp. 1-7.

           4) V, Faivre, op.cit. pp.  82-95.

           5) São muito fortes as ligações entre os movimentos liter��rios e a sensibilidade m��stica e espiritualista do s��culo XIX, principalmente no Romantismo e Simbolismo. Byron, Yeats, Longfellow, Poe, Hugo, Huysman, entre outros, expressavam esta tend��ncia. Ver Eliade, M. Ocultismo, Bruxaria e Correntes Culturais, BH, Interlivros, 1977, pp.57-76; Christy,A. The Orient in the American Transcendentalism, NY, Octagon Books, 1963; Berry, Thomas. Spiritualism in Tsarist Society and literature, Baltimore, Edgar Allan Poe Society, 1985; Kerr, Howard. Mediuns, spirit-rappers and roaring radicals: Spiritualism in    American literature (1850-1900), Urbana, Univ. of Illinois Press, 1972; Faivre, A (org) Cahiers de L��Hemetism: Magie et Literature, Paris, Albin Michel, 1989.

           6) Silva, E. M. Vida e Morte: O Homem no Labirinto da Eternidade, Tese Doutorado, UNICAMP, 1993, pp. 164-5.

           7)     ��      .  op.cit., p.166.

           8)    ��      .     ��   , p.167

           9) Allan Kardec era o pseudônimo do professor e m��dico franc��s Hippolyte L��on Denizard Rivail (1804-69) que organizou o movimento esp��rita na França �� partir de determinadas obras medi��nicas. Sua biografia e envolvimento com as doutrina esp��rita são exemplares para entender os caminhos, nem sempre bem conhecidos, que tomaram as relacões entre Ci��ncia e F��, Razão e religião no s��culo XIX. Suas principais obras foram O Livro dos Esp��ritos (1858), O C��u e o Inferno (1865), O Evangelho segundo o Espiritismo (1866), A G��nese (1868).

           10) ��O Cristo Consolador�� in Kardec, A. O Evangelho segundo o Espiritismo, RJ, FEB, 1972, pp.35.

           11) Vida de Jesus ditada por ele mesmo , ( publicado na França em 1885). RJ, Freitas Bastos, 1995, p.168.

           12) Aventureira, contradit��ria, talentosa, esta russa fugiu a todos padrões religiosos e sociais que a ��poca impunha ��s mulheres, sobretudo de certas categorias mais elevadas da sociedade. Emancipou-se muito cedo dos pap��is tradicionais atribu��dos a mulher, percorreu o mundo por lugares in��spitos, num tempo que somente aventureiros arrojados ousavam desafiar os limites do mundo civilizado e confort��vel. No campo das id��ias filos��fico-religiosas, provocou escândalos ao repudiar o Cristianismo e divulgar ao mundo o conhecimento tradicional da Índia, numa ��poca em que o neo-colonialismo submetia este continente a forte opressão e era considerado um mundo selvagem e primitivo onde pululavam as crendices e superstições. Dizendo-se inspirada espiritualmente por mestres oriundos do Extremo Oriente, sobretudo do Tibete e da Índia, Blavatsky (1831-91) produziu numerosas obras de revelação ocultista. Em Isis revelada (1877), A Doutrina Secreta,(1888) entre outras obras foram lançadas as bases de uma teoria de evolução espiritual indefinida atrav��s da metempsicose e da iniciação progressiva.Ver.H.P. Blavatsky: Collected Writings (1874-8), Adyar/Madras, Theosophical Publishing House, 1966.

           13) Blavatsky, H.P. A Doutrina Oculta (publicado em 1889). SP, Hemus, 1977, p.160.

           14) Eliphas Levi era o pseudônimo de Alphonse Louis Constant (1810-75). Maçom, rosacruz, te��sofo, iniciado em v��rias sociedade secretas da ��poca, Levi foi um dos l��deres do renascimeto ocultista do s��culo XIX e influenciou todas a gerações posteriores. Durante sua juventude teve grande atividade pol��tica radical que custaram tr��s prisões, al��m de intensa produção liter��ria. À partir de 1856 começa a escrever sobre Magia e Ocultismo. Suas principais obras são: Dogma e Ritual da Alta Magia(1856), Hist��ria da Magia (1860), A Chave dos Grandes Mist��rios (1867), Grande Arcano (1868). Sobre suas atividades como ativista ver Bowman, F.P. Eliphas L��vi Visionnaire Romantique, Paris, Presses Universitaires de France, 1969.

           15) Levi, E. Grande Arcano, SP, O Pensamento,1926, pp. 111-2)

           16) Marqu��s Stanislas de Guaita (1869-98) foi um destacado ocultista de sua ��poca e ligado ao movimento simbolista na literatura. Como literato escreveu Les Oiseaux de Passage (1881), La Muse Noire (1883) e Rosa Mystica (1885). Encontrou seu caminho como esoterista e ocultista ap��s ler obras de Eliphas Levi. Como ocultista publicou No Umbral do Mist��rio (1886), O Templo de Satã (1891),  A Chave da Magia Negra (que s�� foi publicado em 1897), O Problema do Mal (1891).

           17) Guaita, S. De. No Umbral do Mist��rio, SP, Martins Fontes, 1985, p. XVII.

           18)          ��              Le Probl��me du Mal, Paris, Ed. De la Maisnie, 1975, pp. 10-1).

           19) Eliade, M. Origens, Lisboa, Ed. 70, 1989, pp.55-72. 


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